A tradução de 'poética seca' é 'realidade'...
E você diria: 'mas poesia é amor!'
'Sim!' - continuaria eu, com um sorriso cheio de possibilidades - 'Mas amor não é tudo!'

'Realidade é amor com escolha... amor é base... escolha é sentido!'


Entre sem bater!

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Ins#piração


"É sempre mais difícil ancorar um navio no espaço."
 Ana Cristina César


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Da Finitude da nossa pequena participação nesse pedacinho de tempo-espaço


Há uma sabedoria no movimento de sístole e diástole, como diz Cortella. Nosso coração, nosso pulmão, dizem até que o planeta pulsa. O Universo vem da retração. E logo mais, alguns bilhões de anos depois de você ler este texto, voltará a ser pequeno.

E não somos assim, grãos de areia aspirantes à estrela?

Encapsulados nessa carcaçazinha, vamos empurrando de dentro pra fora, massacrados de fora pra dentro, pressionados por nossos próprios EUs superiores, docentes da arte de ter, multiplicadores de células, contadores de cédulas, rompendo tendões para alcançar um espaço sob o céu azul, tamanha a ilusão de ótica.

E depois da lida árdua, gastamos ar, fôlego e piedade, discretamente chorosos pela má sorte de encolhermos, resmungando, até o reencontro com nossa única, assustadora e intransponível passagem, sistólicos.

Sêneca, sábio, dizia que se temos que chorar, que choremos antes, juntos. Não depois, por vaidade e culpa.

Atentem, assim, pra grande sacada: o amor.

Se tivermos que amar, amemos antes, juntos. O amor é a única cola, a única via de acesso. Ponte larga que atravessa, finda e recomeça.

No caminho solitário de volta pra casa, no enfrentamento de nossas próprias escolhas, o amor é o único farol e a única moeda.

A força está no amor. E no recomeço.
(Em memória de Marcelo Min, Silvana Abreu, Fernando Barros, Maria de Lourdes Clemente, Eduard Heinlik, Mari Bauer, Rosa da Silva Pereira, Eupídio...)


sábado, 6 de junho de 2015

EU NÃO




Empurro o tempo com a barriga. Aos quintos dos infernos os que sucumbem. Que se matem os caga-regras. Ecat!

Solenemente me desculpo e foda-se.

Se a dor de saber-me só é um tanto maior do que a dor de saber-me menos, então nem o chão, nem a chuva, nem o conto ou o palco darão conta dessa bananosa toda.

Sêneca dizia que o seu mundo era pão e circo, que as escolas estavam morrendo. Ele próprio morria. Inacreditável caralho.

Nada de aplausos ou vaias. Surras ou colos. Apenas uma lanterna desleixadamente esquecida no canto da sala vazia. Fácil e dolorosa. E eu me resguardando, um passo atrás.

Imbecis, imbecis! Por que eu me importo? Seria apenas um movimento contínuo, perpétuo. Mais um. Mas não me serve feito luva. Vou parar essa bosta, mijar na fogueira. Sem juros nem correções.

Maya, boca traiçoeira, minha mão direita é que te faz carinho. Sangue do meu sangue, verme do meu bucho. Sangue da nova aliança que faço. Sangra, porque agora sou surdo de ti. E acho graça da sua cara linda.

Ah, vozes do bem o do mal, evoé! Porque mesmo me fingindo de morto, vou rir de vossas dúvidas e celebrar tudo aquilo que está em movimento. Evoé filhos do Caos!!!


Eu? Eu quero acreditar. Porque lá no fundo, bem nos confins, eu acredito sim. Mesmo sabendo que não é verdade.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Chuva

Ventei, ventei...
Depois chovi mil canivetes.


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Haikai - sobre a limitação

Não consigo.
Há muito barulho.
Silenciar não é apenas uma questão de não querer ouvir.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Era uma vez uma árvore, a minha árvore linda



Desde pequeno eu via, do banco de trás do carro do meu pai, na entrada da minha cidade, uma árvore. Copa frondosa, centenária. Linda. Todo dia.

Desde sempre esteve alí. Ao menos pra mim.

Sempre que desenhava uma árvore, era nela que pensava. E, brincando com seus contornos, tentava criar os meus. Era minha árvore linda.

Se uma árvore era uma árvore, então era porque ela possuía alguma coisa daquela minha árvore linda. Talvez o verde profundo. Ou a copa vasta. Talvez só o nome, ou o modo com que as folhas balançavam, sei lá.

E com o lápis, daquele jeito que a criança aperta forte no papel, o tronco contava histórias.

Depois fui crescendo. Me tornando homem. E, destemido, mergulhava de cabeça em tudo. Sempre achava que daria pé. E quando não dava mais, pegava a estrada e passava perto da minha árvore. Árvore linda. E sempre, sempre ouvia dela que tudo ia dar certo, que as dores passavam, os trabalhos passavam, os momentos passavam. E o amor. Ah, esse ficava. Tudo que não dependia do outro, ficava. Ao menos era o que ela sempre me dizia quando não dava mais pé.

A minha árvore linda era a certeza de que tudo podia permanecer. Ah, que ideia linda, como a minha árvore.

E cresci mais, envelheci. E mesmo entrando na água com mais calma, sempre buscava a minha árvore. Passava por ela. Do banco do motorista do meu carro.

Acabei de entrar na minha cidade. Bem alí na entrada meu coração parou. Minha árvore linda não estava mais lá. Restaram apenas alguns pedaços no chão. Pedaços de mim.

O ar e a certeza de que tudo pode permanecer. Nada respira.

Minha árvore não está mais alí. Mas um moço bonito me disse pra eu olhar pra mim. Ela, a minha árvore, também está em mim. Até mesmo aquele meu galho que caiu com ela. Está em mim. Porque o amor, ah, o amor, não depende do outro.

E a beleza estava aí, todo o tempo. Aceitando a impermanência, permaneci.

terça-feira, 17 de junho de 2014

FOI O MAR QUE ME VIU














Olhei o mar.
A brisa quente ardia na pele desacostumada, amarelo-acinzentada, espelho do concreto.
Há muito tempo não via o mar.

É costume na cidade evitar a sujeira do chão,
Contrair os músculos para não esbarrar no outro,
Andar depressa para chegar logo aos inacabáveis compromissos.

Mas ali, não. Apenas barulhos do mar quebrando e a perspectiva de uma ducha quente antes de dormir.
Minha agitação interna não combinava com o clima ameno do lugar. Eu trazia comigo tanto receio, tanto medo. Nem sabia de onde vinham.
Pensei em entrar na água, mas finquei os pés na areia grossa. A razão não dava trégua.
A brisa, o calor, um começo de entardecer e minha solidão, tudo me dizia para entrar na água. Mas o que fazer com o medo que me fazia prisioneiro daquele pedaço seco de praia?

Resolvi deixar o tempo passar, um pouco. Respirava fundo. Deixava a música do vai e vem da água despregar meus pés. Depois de minutos, que mais pareciam horas, dancei até o mar.
Ah, as contradições. Ah, os fantasmas obsessores.
Estava eu lá. Entrando assustado no mar. “Coragem, rapaz”. Caminhava devagar, gato escaldado. Os pés? Firmes no chão como âncoras. As ondas até que tentavam. Minha mente resistia.
Aproveitei uma brecha em minha neurose, respirei fundo e soltei os músculos.
Passei por baixo de uma onda quebrada que desplantou meus pés e me lançou ao desconhecido.
Doía tanto não sentir o chão. Quase não conseguia abrir os olhos. “Quando me tornei tão pesado? Não sou assim.” Não era.
O ar. Faltou o ar.
O coração disparava. Solto no mar tranquilo, tremia de pensar em como seria flutuar sem chão. Qual seria o aprendizado? Me deixei ali e respirei, respirei. Aliás, respirar foi um dos meus grandes aprendizados em anos de crises de ansiedade. Respirava e a vida voltava a pulsar. Respirava. Respirava.
A água morna me acariciava. A brisa havia esfriado. O sol brilhava vermelho no céu. E eu continuava respirando. Vivo. Respirando.
Mais calmo, arrisquei olhar para os meus pés.
Não era hora. Não os via. Não via o chão.
A água turva impedia o olhar, permitia apenas a intuição, a sensação de que havia um chão. Mas era só uma ideia. Me desesperei denovo. “Como colocar os pés no chão se não sei o que há lá embaixo?”, gritava minha mente agitando a água. “Como? Que monstros me esperam? Que tubarões estariam espreitando aquele pedaço de mar?”
Não, eu não me reconhecia naquela covardia. Não podia seu eu. “Não, rapaz. Medo de quê exatamente? Qual o bicho que te atacou, quem te mordeu?”. Ah, mente turbulenta...

“Nenhum monstro me mordeu, nada aconteceu”, respondi ávido de vingança, querendo revanche contra a minha própria mente.
Pois bem, nenhum bicho havia me mordido. Não ali, na água morna, gostosa, durante aquele entardecer que quase passou por mim sem que eu o degustasse. O medo cega de uma tal maneira, com tal empenho. Mas naquela revanche me abri para o abissal espaço que me separava de mim. Rocei os pés no fundo do mar. Senti a areia. Boiei. Senti apenas carinho. Continuei respirando.
Ah, medo ilegítimo. Ah, ansiedade trapaceira. Ah, covardia. Xô!
Os últimos raios vermelho-dourados do sol marcavam o céu. As primeiras estrelas davam pinta de diamantes. O coração, ainda inseguro, não batia mais de medo, mas pulsava de ternura. Boiei mais um pouco, olhando o teto do mundo e as minhas limitações.
Senti que podia. Sabia que podia. Era hora. Mergulhei... e deslizei, orgulhoso de mim, para a areia da praia.
Lá, molhado e firme, nem lembrei de fincar os pés.
Andei.
E sorri sem olhar para trás.